A LEITURA NUMA PERSPECTIVA SOCIAL: COMO A DESIGUALDADE SOCIAL INTERFERE NA PRÁTICA DE LEITURA?

Categorias: Linguística, Letras e Artes
Escrito por:

Ana Clécia Maria da Silva

Gérsica Cássia Ferreira Leite[1]

A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede.    ( Carlos Drummond de Andrade)

RESUMO:

Vivemos numa sociedade grafocêntrica em que a prática da leitura e escrita são vistas como algo imprescindível para inclusão social. Percebe-se que a sociedade atual vive numa incessante busca por informações, por conhecimentos, e a leitura acaba por se tornar um importante veículo para adquirir tais saberes. Porém, o que muitas vezes se observa é que nem todas as classes têm acesso aos bens culturais de maneira homogênea. Uns sempre têm mais que outros. Partindo desse pressuposto, um dos objetivos desse artigo é observar se a desigualdade social influencia na prática de leitura. Se o acesso à leitura ocorre igualmente nas camadas mais privilegiadas e populares. A pesquisa também elucidará qual a relação existente entre a leitura e a sociedade e quais os fatores sociais que interferem na qualidade de formação de leitores. Este trabalho visa, além disso, descrever as práticas sociais de letramento de adolescentes que freqüentam  tanto instituição escolar privada como pública, a fim de identificar se há alguma  relação  entre essas práticas e a classe social a qual pertencem.  Por fim, abordará como podem ser reduzidas essas diferenças com relação à prática da leitura e da escrita partindo do conceito de letramento.

PALAVRAS CHAVES: Leitura, desigualdade social, letramento.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho parte da hipótese  de que há uma estreita relação entre a classe social e o grau de letramento dos cidadãos. Deste modo, acredita-se que as crianças de classes sociais mais abastadas têm mais acesso à leitura do que as crianças de classe popular. É sabido que crianças que vivem em “ambientes letrados”, ou seja, ambientes que possibilitam práticas sociais de leitura e escrita, se motivam mais cedo para ler e escrever. Além disso, entra em contato precocemente com os diversos gêneros textuais e percebe seus estilos, usos e finalidades. Portanto, caberá a escola uma implicação pedagógica fundamental: proporcionar aquelas crianças de meios populares que não vivem num ambiente letrado (nem todas) a vivência de práticas reais da leitura e produção de textos diversificados. Isto é, proporcionar ao aprendiz, vivências no cotidiano escolar, situações em que textos são lidos e escritos porque atendem a uma determinada finalidade. Só desta forma, tanto crianças de meios populares como crianças de classes sociais privilegiadas teriam acesso igual aos meios culturais de que a sociedade dispõe.

De uma forma geral, sabe-se que a bagagem que as crianças levam para a escola com relação à aquisição da leitura e escrita pode diferenciar de acordo com a classe social a que pertencem, pois vivem experiências culturais diferenciadas. As oportunidades culturais não chegam da mesma forma para todos. Um aluno que mora, por exemplo, numa favela lida todos os dias com problemas como moradia, saúde, alimentação, etc. Enquanto que alunos de classes econômicas superiores não se preocupam com tais problemas, pois nada lhes falta. Então, certamente a criança do primeiro exemplo terá questões maiores para se preocupar do que com a prática da leitura e a escrita. E quando se preocupam com tais aquisições é como instrumento de ascensão social, como um modo de se igualar aos “superiores”.   E a escola e a família muitas vezes acabam por reforçar essa idéia: ler e estudar para ser alguém na vida. Enquanto que a segunda criança, normalmente, foi estimulada a ler em casa nas horas vagas e a escola se encarregou de tal papel depois. Há, portanto uma visível preocupação apenas com a alfabetização nas escolas públicas ( o que não significa que nas escolas particulares não exista) que faz com que as crianças se desestimulem ainda mais com o hábito de ler.

Portanto, este artigo tem como objetivo observar se a desigualdade social tem influenciado realmente a prática de leitura na sociedade. Também analisará como o hábito de  ler vem sendo realizado nas classes sociais mais privilegiadas e populares e como é o acesso desse segundo grupo à leitura.

1.O QUE É LEITURA?

A prática de leitura vem sendo problematizada com o intuito de melhorar essa habilidade nos âmbitos escolares. A leitura deixou de ser vista como um simples ato de decodificar signos lingüísticos. Mas nem sempre foi assim, existiu um momento na história  da leitura que lê significava pronunciar e voz alta as letras escritas no papel. Hoje se sabe que não ler apenas jornais, revistas ou livro, mas lê-se o mundo. Ler é conhecer, pois ler significa perceber e compreender as relações existentes no mundo. Segundo Freire:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior a leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto” ( FREIRE, 1998, pág. 11)

Sendo assim, a leitura é um ato individual, mas não solitário que se inicia com a decodificação dos signos lingüísticos, mas que não se resume a isso, pois a leitura exige do leitor a capacidade de interação com o mundo que o cerca. A respeito disso, afirma Magda Soares:

“… A leitura não é esse ato solitário; é a interação verbal entre indivíduos, e indivíduos socialmente determinados: o leitor, seu universo, seu lugar na estrutura social, suas relações com o mundo e com os outros…” ( SOARES, MAGDA, 1988, p.18).

Ler é o processo de construir significado a partir do texto. É uma interação entre  o  leitor e o texto. Para isso, o sujeito leitor parte do contexto e de seus conhecimentos prévios. A leitura se constitui enquanto prática social e sua importância é constantemente ressaltada, no entanto algumas pessoas ainda demonstram seu desinteresse ou desmotivação para se lançar ao mundo da leitura.

2. A LEITURA E A SOCIEDADE

O uso da leitura e da escrita são privilégios pertencentes às classes dominantes, portanto, a escrita é um traço cultural dessa minoria privilegiada, onde são levados em conta tanto a linguagem por eles utilizada como também suas ideologias. Célia Firmino, afirma em um de seus artigos que através da leitura, tem-se acesso aos conhecimentos acumulados pela humanidade, amplia-se a visão de mundo, desenvolve-se a compreensão, a comunicação e o senso crítico. Além disso, a leitura  possibilita  a vivência de realidade diversas e descobertas de pessoas e idéias. Portanto, ela poderá proporcionar o exercício pleno da cidadania, transformando a nós mesmos e a realidade que nos cerca. Com o intuito de “alcançar” e de ter condições econômicas semelhantes, a classe popular, normalmente, percebe a leitura como instrumento de ascensão social, como uma forma de estar incluso e melhor formado para o mundo competitivo do capitalismo. A busca pela informação, do conhecimento torna-se, deste modo, uma característica da sociedade atual.

A partir de uma visão histórica da leitura percebe-se o privilégio das camadas sociais com relação ao ato de ler e escrever. No século XVIII, a leitura recebeu duas novas orientações: uma tecnológica e outra institucional.  Com a Revolução industrial e a implantação de sistema escolar unificado, a leitura se expande como prática social. Houve uma multiplicação no número de leitores: para torná-lo capazes de consumir os textos e por aumentar cada vez mais a produção de livros.  Há, portanto, uma troca de produtos: a escola forneceu leitores para o mercado, e esse gerou material para circular durante a escolarização e depois dela.

A leitura tornou-se, portanto, mais popular e uma prática usual entre as pessoas de diferentes classes sociais. Todavia, a distribuição desta entre esses grupos não se deu de maneira semelhante, nem tão pouco igualitário, pois de um lado havia as preferências e do outro as disponibilidades econômicas e intelectuais dos consumidores do produto.

Essa distribuição de forma desigual dos acessos a leitura traz conseqüência ao mundo atual. Ainda hoje se percebe algumas dificuldades que os alunos de classe social menos privilegiada possuem com relação ao hábito e habilidade de ler.

3. FATORES SOCIAIS QUE INTERFEREM NA QUALIDADE DA LEITURA E NA FORMAÇÃO DE LEITORES

Um traço marcante da sociedade, como vimos,  é a desigualdade social que gera consequentemente situações de injustiça, nas quais a minoria vive bem e a maioria luta com várias dificuldades para sobreviver. O problema passa a atingir também as crianças que apresenta, geralmente, dificuldades de aprendizagem e não se mostram motivadas a ler. Fatores sociais como: a carência afetiva; as deficiências nas condições de moradia e alimentação; falta de estimulação; ausência de atividades lúdicas; ambientes repressivos; problemas nas relações interfamiliares e falta de métodos de ensino inadequados, acabam por afetar o processo de ensino-aprendizagem dos alunos. A respeito disso, afirma MARTINS:

Quando, desde cedo, vêem-se carentes de convívio humano ou com relações sociais restritas, quando suas condições de sobrevivência material e cultural são precárias, refreando também suas expectativas, as pessoas tendem a ter sua aptidão para ler igualmente constrangida. Não que sejam incapazes (salvo pessoas com graves distúrbios de caráter            patológico).A questão aí está mais ligada às condições de vida, a nível      pessoal e social (MARTINS, 1994, p. 18)

Outro fator também relevante é a bagagem cultural dos alunos. Enquanto as crianças pertencentes à classe dominante vivem num ambiente letrado no sentido mais amplo, as pertencentes à classe popular vivem num ambiente letrado mais restrito. O contato com os gêneros textuais se resumem basicamente a revistas de artistas, livros escolares, cartilhas, álbum  de figurinhas, revista de quadrinhos. Poucas vezes têm-se o contato com grandes obras literárias, textos científicos, etc. O acesso aos bens culturais não chegam da mesma forma para todos.

Sendo assim, a escola tem um papel importantíssimo na redução das diferenças entre as práticas de leitura no meio social, deverá proporcionar ao aluno a vivência real com o mundo da leitura e produção de textos. Essa instituição muitas vezes não reconhece seu papel na formação de leitores proficientes e atribui apenas à carência do aluno o seu fracasso escolar. No entanto,  a escola não deverá apenas alfabetizar (aquisição pelo aluno de uma tecnologia, a escrita alfabética e as habilidades de ler e escrever), mas sim, alfabetizar letrando, ou seja, o exercício efetivo e competente da tecnologia escrita, afirma Soares.

É dever da escola ampliar o conhecimento dos alunos e trabalhar a partir  das dificuldades encontradas no dia-a dia de cada um deles. Já dizia Emilia Ferreiro, “Quem tem muito pouco, ou quase nada, merece que a escola lhe abra horizontes”.

Diante disto, retomando nosso objetivo de pesquisa, propomo-nos a investigar quais as concepções de leitura para alguns estudantes de colégio particular e outros de escola pública. Deste modo, analisaremos se a classe social está relacionada à prática de leitura respondendo ao seguinte questionamento: as concepções de leitura de um aluno que estuda numa instituição pública e tem um status econômico menos privilegiado, idealiza a leitura da mesma forma que um estudante de instituição privada e privilegiado economicamente? Para tanto, traçamos um percurso metodológico que nos permitiu nos aproximar de nosso objeto de estudo.

4. METODOLOGIA

1. Participantes

Participaram da pesquisa seis alunos, sendo 50% estudantes de instituição privada e 50% de instituição pública, de idades entre 17 e 19 anos. Todos os alunos cursavam o 3° ano do ensino médio, os de escola particular no Colégio São Judas Tadeu localizado em Camaragibe, região metropolitana do Recife e os demais na Escola de rede estadual, Professor Carlos Frederico do Rego Maciel, também situado no mesmo município. Vale ressaltar que os estudantes de rede privada pertenciam ao nível sócio-econômico médio- alto, e os de rede pública ao nível sócio-econômico médio- baixo.

2. Material

Para a coleta de dados foi utilizado um questionário contendo cinco questões subjetivas. A primeira era referente ao que é ler, a segunda referia-se  a função/ importância da leitura e por que o entrevistado  praticava a leitura; a terceira indagava se o aluno gostava de ler e o que gostava de ler; a quarta perguntava que livro o entrevistado acha que todo mundo deveria ler na vida; e a quinta estava relacionada a como o aluno percebia a leitura na comunidade  na qual  vive(lê-se muito ou pouco) e por que ele acha que  isso ocorre.

3. Procedimento de coleta de dados

O questionário foi aplicado individualmente. O entrevistado lia o questionário e esclarecia suas dúvidas com as pesquisadoras. Ao final da aplicação, cada sujeito entregou o questionário respondido as mesmas.

5. RESULTADOS

O foco da pesquisa está na concepção de leitura para alunos de escola pública e particular. Com base nos dados coletados através da aplicação do questionário, algumas das hipóteses foram confirmadas. Foram avaliados seis alunos no total, sendo três de instituição pública e três de instituição privada.

  • Escola pública

Com o objetivo de analisar a percepção dos alunos sobre o que é ler , foi possível observar que a maioria dos entrevistados acreditam que a leitura é um modo de conhecer coisas novas/ se informar e compreender aquilo que está escrito. Uma das alunas afirma que ler é “é você conhecer melhor o mundo. É a busca por novos conhecimentos, por uma vida melhor.”

Com o objetivo de analisar a funcionalidade da leitura e por que lêem, a maioria dos entrevistados afirmaram que a leitura serve para adquirir novos conhecimentos, uns ainda afirmam: “ Para adquirir mais conhecimento escrever bem, ler melhor….” ;“ Eu leio porque e com o livro que eu aprendo palavras e o principal o significado delas…”

A fim de investigar se o aluno gosta ou não de ler, e o que ele gosta de ler, percebe-se que a maioria dos entrevistados não gosta, e os que lêem são geralmente livros de auto-ajuda ou romances. Uma das alunas afirma gostar de ler livros “que de uma forma bem clara nos ensine a ter um padrão de vida melhor.”

Ao indagar sobre os livros  que na percepção do entrevistado todo mundo deveria ler, as respostas foram uma espécie de afirmação da questão anterior: “Nunca desista de seus sonhos, Augusto Cury;  Você é insubstituível, Augusto Cury;   A vida é bela, Dominique Gloucheux; e a Bíblia.

A última questão que visa saber como o aluno observa a leitura em sua comunidade e o porquê que ocorre de tal maneira, as respostas foram homogêneas: “Lê-se pouco.”  As razões para isso é que diferem, um acredita que é por falta de interesse; outro, falta de incentivo na infância por parte dos familiares; e outro ainda: “porque as pessoas preferem perder tempo assistindo  TV e navegando na internet ao invés de ler livros que aprimore seus conhecimentos”

  • Escola Privada

Com o objetivo de analisar a percepção dos alunos sobre o que é ler, percebe-se que a leitura é tida como uma atividade imaginativa, como uma forma de comunicação, ou ainda como um meio para se informar.

Em relação à funcionalidade da leitura, e o porquê lêem; afirmaram que a leitura serve para “se informar, distrair, buscar conhecimentos…buscar conhecimentos de vários autores”; “serve como meio de comunicação”; em geral, segundo os alunos, a leitura serve para conhecer, buscar novos conhecimentos. Quanto ao por que de ler, as respostas foram as seguintes: “me manter informada”; “por prazer, porque gosto amo”; “para entender outros pontos de vista… como lazer”

A fim de investigar se o aluno gosta ou não de ler e o que eles gostam de ler, observa-se que todas as repostas foram positivas; alguns preferem romances, literatura brasileira, jornais e revistas científicas.

Em relação ao livro que todo mundo deveria ler na percepção do entrevistado, as respostas foram basicamente essas: “a menina que roubava livros, a Bíblia, o futuro da humanidade e o pequeno príncipe”.

Com o objetivo de analisar a percepção dos alunos em sua comunidade, todos afirmaram que a leitura não ocorre com intensidade, a causa disso, segundo eles, é a falta de incentivo, de costume, falta de interesse.

6.DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Os dados apresentados acima estão em consonância com o que foi apresentado no tópico:  fatores sociais que interferem na prática da leitura.

Analisamos que a bagagem cultural dos alunos é um fator relevante na prática de leitura. A falta de incentivo, ou a existência de um ambiente letrado bem mais restrito em relação ao da classe “elitizada” fazem com que os educandos  de classe popular não tomem gosto pela leitura. A prática desta  está resumida, numa visão geral, em livros de auto-ajuda e  na Bíblia, enquanto que estudantes de instituição privada lêem  uma variedade de gêneros textuais maior: revistas cientificas, clássicos da literatura, etc.

Observamos também que as dificuldades econômicas enfrentadas por estudantes de escola pública fazem com que eles encontrem na leitura um modo de melhorar de vida , conseguir status sociais.

7. O LETRAMENTO COMO INSTRUMENTO PARA REDUZIR AS DIFERENCIAÇÕES NA PRÁTICA DE ESCRITA NAS CAMADAS POPULARES

O letramento se constitui, portanto, uma importante ferramenta para estimular essa prática sociocultural que é a leitura.  Segundo Soares, o letramento se constitui uma prática social que possibilita uma melhor inserção cultural do indivíduo. Mas o que é letramento?

Segundo Soares (2003), letramento “relaciona-se ao exercício efetivo e competente da tecnologia da escrita”, ou seja, um sujeito letrado é aquele que sabe ler e escrever no contexto das práticas sociais, o que lhes permite  também uma melhor inserção cultural.

É sabido que atualmente, vive- se numa sociedade letrada e enquanto integrante desta o indivíduo deve ser capaz de ler textos escritos, ainda que não seja alfabetizado, isto é, domine a leitura e a escrita.  Ser letrado é conhecer os diversos tipos de textos que circulam na sociedade e sua funcionalidade.

Na verdade as escolas contribuiriam para reduzir as desigualdades nas práticas sociais de leitura e escrita se no  seu currículo  houvesse a proposta de alfabetizar letrando, ou seja, possibilitar que o aluno adquirisse a escrita alfabética e as habilidades de utilizá-la para ler e escrever, mas também que esse aprendizado se tornasse um exercício efetivo; esse é o grande desafio. As conseqüências dessa nova metodologia, seriam: Sócio- culturais; cognitivas e lingüísticas. Social e Cultural,  na medida em que o sujeito passa a viver na sociedade de modo diferente se inserindo na cultura grafocêntrica, o que não significa dizer que o sujeito mudará seu nível sócio-econômico. Já nas  conseqüências cognitivas,  o individuo poderá ter formas de pensamentos mais elaborados, além das conseqüências lingüísticas, tendo em vista que a linguagem escrita pode influenciar na linguagem oral, aumentando, por exemplo, o vocabulário. Partindo da análise dessas conseqüências, conclui-se que o sujeito poderá integrar-se apropriadamente nas atividades sociais que lhes são exigidas.

Não basta apenas ser alfabetizado, simplesmente adquirir o código da escrita, para o exercício pleno da cidadania faz-se necessário ainda mais: o sujeito precisa se apropriar da função social da leitura e da escrita, isto é ser capaz de fazer uso dessas duas habilidades no dia- a-dia. É o que denomina-se letramento, a convivência das pessoas com diversos gêneros textuais.  Um exemplo de pessoa letrada e não alfabetizada é, por exemplo, quem sabe elaborar uma carta, mas não sabe escrevê-la. Da mesma forma, pode-se falar de pessoas que são alfabetizadas, ou seja, dominam o sistema de escrita alfabética, mas são incapazes de produzir textos em situações específicas, ou que não conseguem nem mesmo compreender certos textos com os quais se deparam em seu cotidiano.

O ideal para que isso não ocorra de modo tão corriqueiro seria, como dito anteriormente, alfabetizar letrando: é necessário ir além de um ensino de alfabetização que esteja limitado aos livros;  é trazer para a sala de aula textos  que circulam  a sociedade na qual o educando vive: notícias, letras de músicas, textos literários, etc. Porém, o que muitas vezes acontece é que mesmo trazendo esses tipos de texto para a sala de aula o ensino de leitura e escrita continua baseado no sistema tradicional: copiar e juntar sílabas. Nessa perspectiva Artur Gomes e Eliana Albuquerque afirmam:

“ Democratizar o acesso ao mundo letrado não significa encher a sala de aula de recortes de jornal, rótulos, embalagens, cartazes publicitários e colocar livros numa estante. Pressupõe, isto sim, que o aprendiz possa vivenciar no cotidiano escolar situações em que textos são lidos e escritos porque atendem a uma determinada finalidade. Essa pode ser a busca de puro prazer, a busca de informação para alcançar uma meta, a necessidade de registrar algo que não pode ser esquecido, etc. Mas trata-se de ler e produzir textos! Nada de usar a apresentação de textos como pretexto para memorizar letras ou sílabas soltas.”

Em suma, como já foi discutido anteriormente: o que se percebe é que o gosto pela leitura está associado às experiências culturais de prática de leitura e de escrita que as pessoas têm oportunidades de vivenciar, mesmo antes de entrar na escola. Retomando a frase de Emília Ferreiro, “quem tem muito pouco, ou quase nada, merece que a escola lhe abra horizontes”. Contudo, ao entrar na escola a criança se depara com um método bem tradicional e ultrapassado de aprender a ler e escrever. Um “método” não agradável, que a desestimula e a impede, de certa forma, a mergulhar mais fundo universo da leitura.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebemos no desenvolver desse artigo que a desigualdade social, de fato, mantém certa relação com a prática de leitura nas camadas sociais menos privilegiadas. No entanto, não se podem generalizar os casos, há exceções. Nem todos os alunos provenientes de camadas populares  demonstram falta de gosto pela leitura ou escrita. Como exemplo, pode-se citar um dos maiores escritores brasileiros Machado de Assis, que teve origem humilde e sua infância foi como a de qualquer outro menino pobre.

De um modo geral, podemos concluir que a leitura nas camadas populares parecem estar ligadas às necessidades emergentes para a inserção cultural, pois lêem os textos na busca pelas informações que necessitam naquele momento.

Questões com relação ao método utilizado nas escolas a fim de que os alunos se tornem leitores proficientes vem sendo discutidas há bastante tempo  no âmbito educacional. No entanto, dificilmente vê-se alguma melhoria. Por que será que isso ocorre?

Basta “passear” um pouco pela história, cerca de quinhentos anos e acharemos a resposta. Desde a época colonial que há uma rígida separação das camadas sociais, onde apenas alguns possuem os produtos culturais eruditos, e outros apenas parte da cultura, chamada pejorativamente de cultura popular. Desse modo,  o sistema educacional atual, parece fazer parte desse ideal: afastar as camadas populares do contato com as obras de arte literária. Isso porque ler implica em conhecer. E conhecer como a camada oprimida vem sendo tratada ao longo da história é um tanto revoltante. Ao se tornar conhecedores críticos de sua existência, os menos privilegiados tentariam reconstruir sua historia e isso não é favorável para aqueles que sempre ocuparam a posição de elite na sociedade.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ALBUQUERQUE, Eliana Borges Correia de; TELMA, Ferraz Leal. A alfabetização de jovens e adultos: Em uma perspectiva de letramento. Editora: Autêntica.
  • FIRMINO, Célia. A leitura em questão: Foucambert pela leiturização social. Interatividade. Andradina (SP), v.1, n. 2, 2006. Disponível em: <http://www.firb.br/interatividade/edicao2/_private2/firmino.htm>. Acesso em: 22/04/2010
  • Freire, Paulo.  A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam.  22 ed.  São Paulo: Cortez, 1988.
  • MARTINS, Maria Helena. O que é Leitura. São Paulo – SP: Brasiliense, 1994. (Coleção Primeiros Passos).
  • ZILBERMAN, Regina & SILVA, Ezequiel Th. da, orgs., (1988). Leitura. Perspectivas interdisciplinares. São Paulo: Editora Ática.

[1] Graduandas em Letras pela Universidade de Pernambuco- UPE Campus Nazaré

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Gérsica Cássia Ferreira Leite, graduanda do curso de Letras da UPE e graduanda do curso de bacharelado em Pedagogia pela UFPE.

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