Ciência, tecnologia e sociedade: uma discussão para os paradigmas sociais

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INTRODUÇÃO

As grandes descobertas da ciência e os avanços tecnológicos, ao longo dos anos, vêm crescendo em ritmo acelerado e isto tem gerado incertezas para sociedade e o aumento de questionamentos sobre as conseqüências sociais do desenvolvimento científico-tecnológico.

Este trabalho apresenta através de uma pesquisa bibliográfica, a trilogia ciência tecnologia e sociedade, o surgimento do movimento CTS (ciência, tecnologia, sociedade) como impulsionador crítico e reflexivo acerca dos avanços científicos e tecnológicos, e demonstra a importância da educação para a formação de uma cultura crítica entre os cidadãos.

O interesse no desenvolvimento deste trabalho surgiu inicialmente da necessidade por um tema atual, relevante e que tratasse sobre um assunto um tanto polêmico. E ao relacionar o presente tema com o enfoque para a área educacional percebeu-se que haviam muitas discussões voltadas para o desafio existente para o educador no desenvolvimento desse tema no contexto escolar, e também da inserção desses como disciplina na grade curricular do educando.

Os CTS (ciência, tecnologia, sociedade) abrem discussões acerca dos muitos paradigmas que envolvem a nossa sociedade, como forma de promover a compreensão das implicações e influências do advindas do desenvolvimento científico tecnológico e o posicionamento dos cidadãos para a participação na tomada de decisões sobre os aspectos que envolvam questões de científico –técnico – social. (ACEVEDO, 2001)

Uma das mais importantes publicações acerca da interação entre ciência, tecnologia e sociedade foi na obra Thomas Kuhn “A estrutura das revoluções científicas” publicado em 1962, tem seu estudo o foco nos condicionantes sociais da ciência, contribuindo assim para novas discussões no campo da história e da filosofia da ciência, pois o estudo da filosofia é considerada “fundamentalmente, uma reflexão acerca da ciência e da sociedade” [1].

Segundo Bazzo (1998, p.11) Na década de sessenta, nos países desenvolvidos, começou a manifestar-se o movimento conhecido como CTS (ciência, tecnologia e sociedade) que surgiu para delinear e direcionar o processo científico- tecnológico originou-se inicialmente das comunidades acadêmicas preocupadas com os problemas políticos e econômicos do desenvolvimento cientifico – tecnológico, que desenvolveram estudos com objetivos de abordar as implicações éticas e sociais relacionadas ao uso da ciência e tecnologia e que hoje têm ganhado força e se inserindo no contexto social e educacional brasileiro.

O MOVIMENTO CIENCIA TECNOLOGIA E SOCIEDADE – CTS

O movimento CTS (ciência, tecnologia, sociedade), trata do estudo das inter-relações entre a ciência, a tecnologia e a sociedade, busca entender os aspectos sociais do desenvolvimento técnico – cientifico, analisa os benefícios, conseqüências sociais e ambientais que podem causar, e também a busca por um maior envolvimento da população nas decisões que envolvem o contexto a qual pertencem, tornando-se assim um importante campo de trabalho voltado para a investigação acadêmica e para as políticas públicas. (PINHEIRO, 2005, p.02)

As primeiras manifestações do movimento CTS (ciência, tecnologia e sociedade), ocorreram em países desenvolvidos apartir dos anos sessenta, pelas comunidades acadêmicas da época, que estavam descontentes e preocupadas com os problemas políticos e econômicos do desenvolvimento científico – tecnológico, onde foram levantadas as primeiras questões acerca das implicações éticas e sociais relacionadas ao uso da ciência e tecnologia. (BAZZO,1988, p.11)

De acordo com Fourez (1995, p.298) “a ciência se isolou das reflexões sobre o ser humano, sobre os valores éticos e mesmo sobre seus próprios fins”, tornando-se imprescindível na sociedade atual a implantação de uma postura compreensiva, critica e avaliativa das novas propostas científicas e tecnológicas apresentadas, como forma de identificar os perigos e as potencialidades de suas conseqüências de ordem econômica, ética, política, social.

Segundo Bazzo (2004), os estudos e programas CTS (ciência, tecnologia, sociedade) têm se direcionado para as políticas publicas no sentido de promover mecanismos democráticos de tomadas de decisões e para educação como forma de pesquisa e de reflexão sobre ciência e tecnologia e seus impactos sociais.

Desde o seu inicio há mais de 40 anos o movimento CTS (ciência, tecnologia, sociedade), tem voltado suas investigações para o campo da educação, apresentando a necessidade de ser colocado na estrutura curricular o enfoque da ciência e da tecnologia no seu contexto social, como forma de instigar os alunos à reflexão contextualizada sobre as causas, conseqüências e  interesses econômicos oriundos dos avanços da ciência e da tecnologia. (BAZZO et. al.2004)

Para Pinheiro et al. (2007, p.72), a educação é um dos pilares da sociedade e cabe a ela mostrar que os avanços científicos e tecnológicos não são apenas benefícios e “[…] pode ser perigoso confiar excessivamente na ciência e na tecnologia…”, pois o desenvolvimento destes estão, muitas vezes relacionados à interesses sociais, políticos, militares, econômicos e com implicações de altos riscos à sociedade.

De acordo com Bazzo (1998, p. 34), a ciência e a tecnologia têm incorporadas questões sociais, éticas e políticas, e a disseminação deste conhecimento reflexivo espera-se da educação, como forma de conscientização do cidadão sobre as implicações e conseqüências dos avanços científicos e tecnológicos e que este se torne mais participativo nas decisões, que influenciarão o futuro das próximas gerações.

O cidadão merece aprender a ler e entender – muito mais do que conceitos estanques – a ciência e a tecnologia, com suas implicações e conseqüências, para poder ser elemento participante nas decisões de ordem política e social que influenciarão o seu futuro e de seus filhos. (BAZZO, 1998, p.34)

Com o desenvolvimento científico e tecnológico, a educação passa a assumir novas responsabilidades, geradas da transformação da sociedade resultante desse processo de mudança. (MORTIMER e SANTOS, 2002).

Para Pinheiro (2007, p.153), o processo educacional, é afetado diretamente por essa mudança de paradigma, sendo necessário um trabalho conjunto de várias disciplinas do currículo e a preparação dos educadores para o enfoque da CTS (ciência, tecnologia, sociedade) de forma que o aluno compreenda a interação desta no contexto social.

Muitos autores em seus estudos sobre CTS (ciência, tecnologia, sociedade) têm apresentado a importância para a educação dos aspectos históricos e epistemológicos da ciência e sua interdisciplinaridade na alfabetização em ciência e tecnologia. Eles têm demonstrado a necessidade de explorar os conhecimentos de forma a obter uma reflexão crítica mais ampla, são citados alguns como: Auler 2002, Bazzo 1998/2001/2003, Mortimer e Santos 2002, Pinheiro 2005, Pinheiro e Bazzo 2004, Pinheiro et al. 2007, entre outros.

É crescente a importância do movimento CTS em diversos locais do mundo, a respeito da educação em ciência, a base do movimento é:

Os currículos e programas devem contemplar também outras dimensões do conhecimento cientifico para além da dimensão conceptual, adaptadas ao nível etário em questão, tais como aspectos da natureza da ciência, da relação ciência-sociedade, da relação ciência-tecnologia, da relação ciência-tecnologia, da relação ciência ética. (CACHAPUZ, 2005, pag.192 apud MARTINS, 2003)

Neste pensamento sobre abordagem da CTS (ciência, tecnologia, sociedade) da inserção nos currículos escolares, o autor Holton (1979, p.216), aponta para a necessidade de “colocar pelo menos um mínimo de história da ciência, epistemologia e discussão do impacto social da ciência e tecnologia no material educacional utilizado nas aulas de Ciências”.

O enfoque CTS inserido nos currículos é um impulsionador inicial para estimular o aluno a refletir sobre as inúmeras possibilidades de leitura acerca da tríade: ciência, tecnologia e sociedade, com a expectativa de que ele possa vir a assumir postura questionadora e crítica num futuro próximo. (PINHEIRO, 2007, p.155)

Nesse sentido, Morin (2003, p. 102), complementa que é necessário desenvolver uma cultura que permita que o cidadão consiga distinguir, contextualizar os problemas globais e fundamentais. O papel do educador é preparar as mentes dos alunos para que possam responder à complexidade dos problemas e aos crescentes desafios que são impostos ao conhecimento humano, através de incertezas que aumentam constantemente sobre o universo e a humanidade.

De acordo com Pinheiro (2007, p.155), para que o ser humano aprenda a buscar a solução dos seus problemas e possa aplicá-lo na prática ampliando seus conhecimentos é importante “despertar no aluno a curiosidade, o espírito investigador, questionador e transformador da realidade”

CONCLUSÃO

O movimento CTS (ciência, tecnologia, sociedade) surgiu na necessidade do envolvimento dos cidadãos para evitar as manipulações da ciência e da tecnologia por grupos sociais e promover a participação cidadã nas decisões sobre implicações dos avanços científicos e sociais sobre a sociedade.

Muitos são os problemas de ordem social, que a sociedade contemporânea enfrentou desde o final do século passado, principalmente acerca das descobertas cientificas e atualmente enfrenta uma série de desafios relacionados à educação e ao ensino, oriundos das transformações científicas e tecnológicas.

Os conhecimentos produzidos pela ciência e tecnologia, trazem a necessidade de um aperfeiçoamento constante dos cidadãos e coube à educação andar sempre junta a essas novas questões que o avanço tecnológico e científico trouxe à sociedade, apontando e demonstrando a importância gerada com as mudanças de paradigmas na historia da ciência.

À medida que este movimento cresceu, a educação ganhou um papel de fundamental importância para a formação do cidadão bem como o seu desenvolvimento para uma cultura crítica reflexiva. Diante deste cenário, o principal papel da educação transformou-se na busca por caminhos que possam levar as pessoas a serem capazes de acompanhar essa evolução, com uma cultura critica e questionadora diante das implicações sociais que todo este conhecimento científico tecnológico gerou e tem gerado.

Observou-se a importância do enfoque CTS (ciência, tecnologia, sociedade) inserido nos currículos como um impulsionador na estimulação do aluno na reflexão sobre as inúmeras possibilidades de leitura acerca da tríade: ciência, tecnologia e sociedade, com a expectativa de que ele possa vir a assumir postura questionadora e crítica perante as incertezas do crescimento desenfreado da ciência e tecnologia.

Para que cidadão desenvolva uma visão mais crítica do contexto da sociedade onde está inserido, percebeu-se a importância do enfoque dos CTS (ciência, tecnologia, sociedade), nos currículos das escolas, não apenas para formação critica do cidadão, mas para conhecer o seu papel significativo no desenvolvimento da sociedade através da participação na tomada de decisões.

De acordo com as colocações dos autores, a educação é essencial para vida do ser humano para que ele aprenda a buscar a solução dos seus problemas e possa aplicá-lo na prática ampliando seus conhecimentos, e é o professor quem tem o dever de despertar no aluno a curiosidade, o espírito investigador e questionador capaz de transformar a realidade.

REFERENCIAL BIBLIOGRAFICO

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AULER, D. (2002): Interações entre Ciência-tecnologia-sociedade no contexto da formação de professores de ciências. Tese de doutorado em educação – universidade de Santa Catarina, Brasil.

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Acesso em 01/05/2010.

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[1] LORENZANO, J. C.(1996): La estrutura del conhecimento Científico. 2ª Ed. Editora Zavalia Buenos Aires, pagina 15.

Sobre Feed do Autor

Graduada em Administração (UNICRUZ), especialista em MBA em gestão e estratégia empresarial (FACISA), pós graduanda em Gestão pública municipal (UFRGS) e em gestão de projetos (POSEAD), doutoranda em epistemologia e história da ciência (UNTRF).

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