A ordem do discurso na esfera da mídia

Categorias: Opinião
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Escrito por:

Antonio Luiz Oliveira Heberlê
Sadi Macedo Sapper
Resumo: Os discursos e os conceitos que emanam dos diferentes segmentos sociais contém noções que os sustentam. Referem elementos do contexto social e p olítico e se fundem a
partir da tensão, do entrechoque das idéias, e assim chegam à mídia. Numa sociedade em que
parece que nada pode ser escondido, vive -se mais do que o primado da informação, o da
performance, dos discursos funcionais, ajustados. Para fa zer parte da esfera dos ditos, há
necessidade de se ajustar ao modelo discursivo predominante, das mídias, de tal forma que o
máximo grau da sociedade é acessar os seus indicadores, ou as chaves de acesso. Por isso, da
mesma forma que se pode dizer que não existe nada fora do olho da mídia, também se pode
induzir que as regras midiáticas ditam a situação, resultando em performances,
comportamentos que se ajustam, tal a nova ordem do discurso, e do fenômeno da
midiatização.
Palavras-chave: Mídia, discurso, sentidos

A nova ordem dos discursos
Na TV o pastor religioso fala para a câmera de televisão; o político olha para
telespectador e fala direto com ele; a voz do Presidente Nacional chega pelo rádio a todos os
lugares, de acordo com a proposta do ma rketing. O astro contratado pela grande equipe faz
um ensaio para os fotógrafos e pode até dizer qual a foto preferida para ilustrar as capas dos
jornais do dia. Há nisto tudo uma aproximação tátil dos atores da vida social com as mídias,
onde a diferença é a indiferença.
Dedicamos nossa atenção para as diferentes análises sobre as expressões humanas,
seus processos de significação, no propósito de compreender o fluxo de sentidos que migram
na sociedade. Uma forma é justamente observar a ação objetiva, man ifesta, que aparece na
expressão discursiva, de tal forma que neste espaço se pode caracterizar a própria
experiência, segundo uma regra geral de significação.
Uma das reflexões mais prestigiadas sobre os discursos oferece um primeiro estágio
para a discussão nesta instância, tem por base o texto de Michel Foucault, em “a ordem do
discurso”, resultante de sua aula inaugural no Collège de France, feita no dia dois de
dezembro de 1970.
É claro que sabemos que, numa sociedade como a nossa, da existência de
procedimentos de exclusão. O mais evidente, o mais familiar também, é o
1 Os autores são doutores em ciências da comunicação pela UNISINOS, jornalistas da Embrapa Clima
Temperado e professores da Universidade Católica de Pelotas. Pelotas, CEP 96001 -970, BR 392, Km 78,
[email protected] e [email protected]
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interdito. Temos consciência de que não temos o direito de dizer o que nos
apetece, que não podemos falar de tudo em qualquer circunstância, que quem quer
que seja, finalmente, não pode falar do que quer que seja. Tabu do objeto, ritual da
circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala: jogo de três
tipos de interditos que se cruzam, que se reforçam ou que se compensam,
formando uma grelha complexa que está sempre a modificar-se (Foucault, 1971,
p.2)2.
A primeira consideração é que na atualidade estas três esferas se combinam num
único ato, com privilegio ao sujeito falante, dada a força que impõe o comportamento
apriorístico. Ou seja, temos a tendência de aceitar o que é dito, até que algo venha a
contraditá-lo. A segunda, em decorrência da primeira, é de que há um amplo privilégio de
oferta do dito por parte da mídia, campo de disputa, mas, sobretudo, de instauração de
sentidos.
Nele desfilam muitos interesses e os múltiplos sentidos são próprios da natureza
midiática. Teremos que racionalizá -la, de tal forma que ao analista seria interessante que se
estabelecessem continuamente os termos da conversação 3. Então não se pode esquecer que a
mídia é do mundo da vida, da vida cotidiana, a qual é regulada por diferentes e imprecisos
discursos, de tal forma que não se apresentam normalmente as condições objetivas para que
os interlocutores saibam tudo, o que permitiria rigorosamente regular o entendimento sobre
certos conceitos. A terceira consideração é esta suspeita de que algo do comportamento
humano tenta evitar o enfrentamento e isso leva à aceitação dos quadros da experiência de tal
forma que raciocinar ou buscar compreensão a respeito das coisas é bastante improváv el, já
que a todo dia é oferecido pela mídia um “prato pronto”, que fácil e confortavelmente pode
ser consumido. Temos então configurada uma quarta proposição, que emerge do
comportamento humano, que permite que se fale das coisas sem grande profundidade o u
aderência às suas matrizes ou origens. Discursivamente pode, inclusive, tornar dispensável a
necessidade de referência ao sentido original das coisas.
O pragmatismo sustenta que, na disputa de sentidos, os agentes “atribuem sentidos
diferentes às mesmas palavras, ou então um dos lados (ou ambos) usa de uma palavra sem
2 Tradução do texto original (Éditions Gallimard, Paris, 1971) para o português nativo por Edmundo Cordeiro,
adaptação para o português falado no Brasil por Antônio Heberlê.
3 O termo conversação se refe re aqui às potencialidades cognitivas das pessoas em suas relações de interação,
“como prática social mais comum no ser humano” (Marcuschi, 1986, p. 5) e neste sentido se distingue das
abordagens discursivas e textuais. Na conversação “o sentido advém do s enunciados a partir de protocolos
negociados pelos próprios interlocutores, de regularidades mais ou menos rígidas, da gestão do espaço
constituído pela relação interlocutiva” (Rodrigues, 2001, p. 184).
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nenhum sentido definido” (CP 1.303, 41 e segs.) 4. Quando Peirce propõe a divisão triádica do
signo em sua relação com o objeto dinâmico, fala em determinação (mecanismo lógico que
faz a conexão interpretante) enfatizando que há uma co -referencialidade entre objeto e signo
que, se for perdida, então não se está tratando da mesma coisa.
A relação triádica, vicária, é importante para situar a questão dos conceitos e dos
discursos. O caráter vicário do signo, como algo que representa algo diferente de si, em geral,
que está no lugar desse outro “como se fosse esse outro” (CP 2.273), permite compreender
que não é todo aquele objeto que está ali representado. E não podemos esquecer que sempre
existe um propósito, que conduz toda interpretação e sem ele não haveria sentido captado. Tal
propósito está relacionado com a própria experiência e é utilizado tanto para conhecer a
dimensão qualitativa; ou para saber qual é a relação factual, de existência ; ou mesmo para
agir segundo uma regra geral de significação, como já apontamos.
Ora, essas articulações são condicionantes para algo que está relacionado ao
significado das palavras e dos discursos. Pode -se depreender que, enquanto signo, as palavras
recebem interpretações variadas, distintas e até opostas. Isso pode ser dito porque a
significação depende da tensão entre o objeto dinâmico e o objeto imediato. Este último,
sobretudo, determinando na relação entre objeto dinâmico e representamen, infinitos aspectos
no processo interpretativo. Logicamente são inumeráveis as significações a respeito das
coisas e isso se amplia constantemente.
Os discursos carregam informações, produtos lógicos que se acrescentam (por
denotação e conotação) a todo tempo, em fu nção da geração de interpretantes ou
significações múltiplas. Assim naturalmente cresce a semiose, como o que acontece com
qualquer outro signo, mas é decisivo não esquecer a referência ao fato que desencadeia toda a
questão. Quando da disputa pelo sentido a respeito de alguma coisa é marcada pela tensão de
vários interesses, os discursos sobre o assunto, as palavras, terão por referência apenas a
própria medida de suas possibilidades de representação.
As reflexões que Peirce realiza ao final do século XIX em muito referem o
pensamento de Aristóteles (384-322 a.C.). Para Aristóteles, o conhecimento a respeito das
coisas é justamente esse processo dinâmico de abstração pelo qual o intelecto produz
conceitos universais. Porém, ao contrário do que pensava o se u mestre, Platão, tais conceitos
(idéias sobre as coisas do mundo) não existem separadamente das coisas. Assim que os
4 Para facilitar o acesso à obra de Charles S. Peir ce utilizamos os textos vertidos para o português, mas manteve –
se a referência ao conjunto da obra original (em inglês) reunida nos Collected Papers e identificada pelo volume
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sentidos que captam as coisas individuais são o ponto de partida, uma vez que a percepção
dessas coisas produz, no intelecto, imagens corr espondentes (Abrão e Coscodai, 2002, p.56).
Logicamente tais imagens por um lado levam à compreensão do mundo pelos
diferentes observadores, mas não necessariamente os intelectos percebem (ou desejam
perceber) as mesmas formas ou aspectos, condicionados qu e estão por diferentes fatores
(como pensava originalmente Platão). Então outro conceito aristotélico, o de
verossimilhança, descrito no livro primeiro da Arte Retórica, é importante para esta reflexão.
Pelo princípio da verossimilhança, há a probabilidade de sobre-determinação de alguns
sentidos sobre outros e assim o que é meramente possível, que é infinito, se converte no
provável ou plausível no plano discursivo.
Temos então uma quinta e importante consideração sobre os discursos. Ao mesmo
tempo em que existem tão diversas quanto possíveis interpretações sobre um conceito
presente num discurso, há sempre o potencial de compreensão sobre o que está sendo tratado.
Não fosse assim, haveria um contínuo impedimento do que está sendo dito pelos
interlocutores. Não é o caso, embora, tanto no contato interpessoal da conversação ou mesmo
na discursividade pública das mídias, interponham -se continuamente inúmeros fatores e
diferentes interesses estejam em jogo.
Ratificamos então que os discursos são investidos de orientação, dos valores, do
institucional. Aristóteles mostra em A Retórica e A Poética que o discurso comporta duas
partes, que são indicar o assunto de que se trata e em seguida demonstrá -lo. Ele se referia ao
discurso dos oradores políticos e jurídic os da época. Por isso o “exórdio”, o começo do
discurso, era tido como fundamental, porque permitia a que todos soubessem do que seria
tratado.
Então voltemos a pensar no que acontece na discursividade pública, sobre aquilo que
é manifesto, que aparece na cotidianidade e no contexto de onde se origina. Os contextos e os
condicionamentos dos diferentes segmentos sociais são elementos determinantes para a
expressão dos discursos. E se pode dizer que os conceitos emanados expressam tais aspectos
(sociais, políticos, econômicos, culturais…) ao integrarem a esfera pública. Eles contém
noções que os sustentam, afinal, emanam do contexto social e político e se fundem a partir da
tensão, do entrechoque das idéias e assim chegam à mídia.
Em função dos jogos de oposição entre e inter-campos, há uma natural polarização, de
tal forma que a expressão dos discursos refere ostensivamente lados opositivos, que mostram
e parágrafo (ex: 2.218).
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a dualidade de fortes correntes contra e a favor, como torcidas de futebol das grandes cidades,
que se apõem radicalmente. Elas se sustentam nos princípios e na defesa dos seus respectivos
campos e, naturalmente, expressam as suas formas de perceber e interpretar o mundo, seus
hábitos, suas posições, suas políticas.
Então, se pode dizer que existem muitos s entidos para os mesmos conceitos, pois isso
decorre, macroanaliticamente, dos múltiplos campos (sociais, políticos, culturais…) de onde
emergem esses discursos, suscitados pelos interesses. As possibilidades de significação,
portanto, são inumeráveis, encarnadas de valores próprios. Pode -se dizer, então, que os
discursos expressam os aspectos da conjuntura onde são gerados, que buscam se afirmar a
partir de dados consolidados, ou melhor, em via de consolidação . São essas instâncias que se
confrontam ao se apresentarem publicamente.
Retomando a questão central dessa discussão, podemos dizer também que os
conceitos expressos nos discursos sob disputa de sentido na esfera pública midiática
permitem muitas interpretações. Embora não se perca a referência com o objeto original, em
função da indivisibilidade sígnica, quando a palavra é proferida, remete para aspectos
diferentes, cada um deles com base num objeto imediato distinto e, portanto, gerando
diversos interpretantes dinâmicos, porque referem aspectos espe cíficos da situação, da
referência na qual acontecem. A questão que se apresenta para reflexão, então, é como
perceber os diferentes entendimentos, qual o papel da mídia nessa particularidade e como é
possível se chegar a uma compreensão do processo.
A contravenção aos sistemas lógicos do sistema de percepção a respeito das coisas
leva Foucault a falar dos princípios de exclusão, acentuado o interdito, a própria rejeição, e
leva essa compreensão para um dos lugares onde a interdição se faz mais notadamente , que é
na esfera da loucura, numa clara oposição à razão.
Desde os arcanos da Idade Média que o louco é aquele cujo discurso não pode
transmitir-se como o dos outros: ou a sua palavra nada vale e não existe, não
possuindo nem verdade nem importância, nã o podendo testemunhar em matéria de
justiça (…) e por oposição a outra palavra qualquer, são -lhe atribuídos estranhos
poderes: o de dizer uma verdade oculta, o de anunciar o futuro, o de ver, com toda
a credulidade, aquilo que a sagacidade dos outros não consegue atingir (Foucault,
1970, p.2).
Talvez este seja o espaço, o da loucura, da transgressão, o que permite pensar uma
certa ordem, já que se admite a des -ordem, pois estamos em busca dos sentidos das coisas e
hoje muito se diz sobre elas (desordem). Temos caracterizada uma sexta consideração sobre
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os discursos, pois, na medida mesma da ampliação, há sempre o não dito, essa espécie de
vazio que se abre no mundo dos signos ligeiros, do imediato, pois fica -se cada vez mais
neles, na superfície das coi sas. Então podemos entender melhor a idéia do interdito
discursivo, algo institucionalizado, que não é dito, ou que é dito tão pobremente de sentidos
que não se apresenta claramente. Aliás, talvez só apareça na “minúscula fenda por onde
aquilo que dizemos nos escapa”, como diz Foucault (1971, p.3).
O não-dito resulta da estrutura institucional dos discursos, que sustenta a ordem do
sistema e que por isso tende à conservação, à manutenção do status. Existem ainda outras
explicações (psicológicas) para os comportamentos diferenciados ou por vezes acomodados.
Festinger (1975, p. 19) diz que: “a realidade que incide sobre uma pessoa exercerá pressões
na direção do estabelecimento de correspondência entre elementos cognitivos apropriados a
essa realidade”. Trata-se da consonância e, em oposição, da dissonância cognitiva. Neste
sentido, dissonância e consonância são relações entre cognições, ou seja, entre opiniões,
crenças, conhecimentos sobre o ambiente e conhecimentos sobre as próprias ações e
sentimentos.
Duas opiniões, ou crenças, ou itens de conhecimento são dissonantes entre si quando
não se encaixam um com o outro, isto é, são incompatíveis. Ou quando, considerando -se
apenas os dois itens especificamente, um não decorrer do outro.
Festinger argumenta que existem três maneiras de se lidar com a dissonância
cognitiva, sem considerá-los mutuamente exclusivos.
1. Pode-se tentar substituir uma ou mais crenças, opiniões ou comportamentos
envolvidos na dissonância;
2. Pode-se tentar adquirir novas informaçõe s ou crenças que irão aumentar a
consonância existente, fazendo assim com que a dissonância total seja reduzida;
3. Pode-se tentar esquecer ou reduzir a importância daquelas cognições que mantêm um
relacionamento dissonante (Festinger 1975: 25 -36).
Por exemplo, os usuários de telefones móveis não têm certeza absoluta sobre os
efeitos das microondas no sensível aparelho auditivo e mesmo no cérebro que está ao seu
lado, pois as pesquisas não apresentam resultados definitivos sobre o assunto. Mesmo
resultados eventuais, preocupantes, vão encontrar o aparelho com tal aderência física que se
tornou fácil aceitar a idéia de que os benefícios tecnológicos justificam qualquer eventual
risco. Torna-se mais fácil às pessoas dizerem a si mesmas que é preciso man ter-se atualizado
e competitivo no mundo de hoje. Além do mais, não há provas de que celulares façam mal à
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saúde. Os grupos naturalistas talvez façam o raciocínio inverso, usando a mesmo suporte
lógico para dizer que, exatamente em função de não se ter seg urança sobre os efeitos
(impactos) desta tecnologia, limitar, controlar ao máximo o seu uso é a melhor saída.
Ou seja, a maioria de nós é inteligente o bastante para suprir e sustentar hipóteses ou
justificativas, para salvar idéias que nos sã o caras, ou que estão ajustadas ao hábito do
segmento a que pertencemos. Teremos que refletir, afinal, aos modos de fixação das crenças,
pois é nessa instância que se estrutura a cognição a respeito das coisas, que serão dissonantes
ou consonantes, dependendo justamente da forma como se estruturam.
Em A fixação da crença, Peirce (CP 5.377-387) descreve quatro métodos que podem
levar à crença das pessoas sobre coisas do mundo:
 Método da tenacidade: aquele que as pessoas buscam ao se fecharem a todas as
influências externas em busca de seus objetivos. Nada os afasta do desiderato e o que
quer que se pense fazer pode ser realizado, pois é necessário, segundo esse método.
Expressa-se aqui a vontade e a predestinação das pessoas em atingir suas metas.
 Método da autoridade: trata-se aqui do peso das forças políticas, econômicas, religiosas,
etc, que constrangem a emergência de outras idéias que não sejam aquelas concebidas e
autorizadas. Aqui o que conta é a força do mandato (seja oficial ou não) dos indivíduos
diante dos fatos e situações.
 Método a priori: distingue-se pelas suas conclusões reconfortantes, já que as explicações
partem das crenças prontas, disponíveis para serem aplicadas às situações. Pensar como
se está inclinado a pensar, e por conseguinte tomar decisões nessa mesma direção.
 Método científico. Considerado por Peirce como aquele mais seguro, pois é o único
racional, que se baseia na lógica, o que independe de fatores outros que não seja a busca
sistemática pela verdade.
Todos os métodos descritos têm suas peculiaridades e são utilizados com certa
naturalidade pelas pessoas. Afinal, a função do raciocínio é de descobrir, a partir do que
sabemos, alguma outra coisa que desconhecemos. No caso do comportamento dos sujeitos
em relação à mídia, o raciocínio apriorístico parece se ajustar, já que há algo no
comportamento humano que tenta evitar o enfrentamento, que leva à aceitação dos quadros
da experiência de tal forma que raciocinar de forma contrária é o mais improvável.
Não é de somenos importância a questão de saber se quando as premissas
são aceitas pela mente, sentimos um impulso para aceitar também a
conclusão. É verdade que, geralmente, raciocinamos naturalmente de forma
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correta. Mas isso é um acidente; a conclusão verdadeira permaneceria
verdadeira se não tivéssemos esse impulso para aceitar; e a falsa
permaneceria falsa, embora não pudéssemos resistir à tendência para
acreditar nela. Encontramo-nos, sem dúvida, entre os principais animais
lógicos, mas não o somos perfeitamente. Muitos de nós, por exemplo, são
naturalmente mais sanguíneos e esperançosos do que a lógica justificaria.
Parecemos ser constituídos de tal forma que na ausência de quaisquer fatos
que o justifiquem, estamos felizes e auto -satisfeitos; de forma que o efeito
da experiência é contrariar continuamente as nossas esperanças e aspirações
(CP 5.365-366).
Ou seja, nem sempre realizamos a operação que pode resultar no encaminhamento
mais confiável, do ponto de vista da veracidade, nas nossas ações. Mas é desconfortável
reconhecer que houve erro de avaliação nossa e aquilo que parecia o mais correto em verdade
não o é. Logicamente os tipos de comportamento são matérias da psicologia e da
antropologia cultural. O que nos interessa aqui são suas conseqüências e não suas causas .
Pensamos nos hábitos semióticos, 5 que se referem a determinadas regras de ação que
acabam por definir certos condicionamentos sígnicos que, uma vez ampliados, tendem a
influenciar de forma significativa a opinião pública. Tal influência se configura de um lado
pela forma (midiática) de apresentação pública (publicização) de temas objeto de tensão
como os que emanam da política, da economia ou da ciência, e por outro pela característica
do conteúdo, ao envolver uma malha de conceitos, que se referem a vá rios campos sociais
(político, jurídico, econômico, cultural…).
Esse comportamento é importante, já que, como diz Foucault, o discurso se deslocou
para o seu próprio enunciado, perdeu seu sentido original de aliança com a verdade, da qual
falava Platão. Vale mais a forma, ou a performance, do que mesmo o seu objeto e a sua
relação com a referência.
Tudo se passa como se a partir da grande partilha platônica a vontade de
verdade tivesse a sua própria história, que não já a das verdades que
constrangem: história dos planos de objetos a conhecer, história das funções
e posições do sujeito que conhece, história dos investimentos materiais,
técnicos, instrumentais do conhecimento (Foucault, 1970, p.4)
Também neste contexto performático e de constrangimentos vive o processo de
comunicação, no interior de sistemas complexos de restrição. Funciona com seus ritos, suas
5 Hábito neste caso se refere aquilo que nos determina, a partir de premissas dadas, a retirar uma inferência ao
invés de outra. Trata-se, portanto, de uma operação específica da mente que permite inferir e saber se o
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operações, seus processos eletivos, qualificando os indivíduos que falam e que estão
habilitados para a prática dos enunciados.
Reflexões finais
A mídia define a performance dos gestos, das colocações negociadas nos bastidores
(das notícias, das propagandas, das novelas…) comportamentos e habilidades que configuram
a própria cena do discurso. O que se vê fora do palco, portanto, é apenas o que e stá
autorizado pelo ritual, que permite instaurar uma fala, um discurso, uma imagem.
Temos que pensar que os discursos apresentados pela mídia, originários de qualquer
campo, não estão à salvo do exercício de um ritual que determina para os sujeitos falant es, ao
mesmo tempo, propriedades singulares e papéis convenientes. Afinal, nesta sociedade da
informação, que é também a sociedade da performance e dos discursos funcionais, a meta do
sistema é conservar, manter o status que a mantém, sem quebrar as regras . A diferença em
relação ao passado é que, para fazer parte dessa esfera, todos passam a jogar por estas novas
regras. Há um alargamento do institucional. O grau máximo da sociedade é acessar os
indicadores, ou as chaves de acesso. Por isso já se pode dize r que não existe mais nada que
esteja fora do olho da mídia, ou fora dos atos simbólicos desta performance, que se ajusta ao
mesmo tempo que ajusta comportamentos, tal é essa nova ordem do discurso.
Por isso não se estranha que a mídia ao oferecer o “prato pronto” tenha assumido uma
espécie de poder de partido, onde se expressa, ajusta determinadas regras de sobrevivência e
enuncia seus próprios discursos. Há um ajuste de interesses entre sociedade e mídia, onde
aparece o que é dito, mas também o não -dito, os interditos, porque como ação de partido
precisa defende interesses seus. Afinal, como face da sociedade, a mídia é inteligente o
suficiente para suprir e sustentar hipóteses ou justificativas, para salvar idéias caras, ou que
estão ajustadas ao hábito d o segmento a que pertence, o da midiatização.
Por isso, se pode dizer que quando o pastor religioso fala para a câmera de televisão; o
político olha para telespectador e fala com ele; o Presidente Nacional é orientado a usar o
rádio e o astro edita a sua f oto nos jornais do dia, há uma aderência dos sujeitos às lógicas de
operação do campo da mídia, o que chamamos de performance, porque é algo que requer
desempenho para que se ajuste àquele corpo discursivo. De um lado as regras midiáticas
ditam a situação, mas não podemos esquecer que as performances são realizações humanas,
principio que governa tal inferência é válido ou não. Tal como explica Peirce em “A fixação d a crença” (CP
5.377-387).
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comportamentos que se ajustam num determinado nível de convivência, tal é esta nova ordem
dos discursos.
Bibliografia
ABRÃO, B. ; COSCODAI, M. História da filosofia. São Paulo: Editora Best Seller, 2002.
FESTINGER, L. Teoria da dissonância cognitiva. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.
FOUCAULT, M. L’ Ordre du discours. Paris: Gallimard, 1971. Tradução de Edmundo Monteiro,
com ajuda para a parte inicial do Antonio Bento e adapt ação para o português de Antônio Heberlê.
MARCUSCHI, L. A.. Análise da Conversação, 4 ed. São Paulo: Ática, 1986.
PEIRCE. C.S. Semiótica. São Paulo: Perspectiva. 2000. 337 p. Tradução José Teixeira Coelho, do
original The Collected Papers de Charles Sanders Peirce.
PEIRCE, C.S. A fixação da crença. Disponível em: http:bocc.pt/index: Universidade de Beira
Interior, tradução de Anabela Grandin Alves. Popular Science Monthly, November 1877, p. 1 -15.
Acesso em: 25 jun. 2004.

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